Archives Junho 2023

O Sul ainda terá o melhor Sommelier do país

Previsão foi feita por Wallace Gonçalves Neves, o melhor profissional do Brasil em 2022, durante a 3ª Jornada do Sommelier promovida pela ABS-RS. Concurso consagrou Luis Gustavo da Silva Buske como bicampeão no estado

“É importante que as empresas valorizem a profissão do Sommelier porque ela é fundamental para que se amplie a cultura do vinho no país. Com mais conhecimento teremos um mercado mais maduro em todas as pontas”, defendeu Buske

Luis Gustavo da Silva Buske conquistou o título de Melhor Sommelier do Rio Grande do Sul, pela segunda vez seguida, após a finalíssima promovida pela seccional gaúcha da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-RS) que ocorreu na tarde de sábado (3), no Hotel & Spa do Vinho, em Bento Gonçalves, e que também contou com um estreante em finais, Marcelo dos Santos, e com a campeã da primeira edição do certame, Deisi da Costa. No mesmo dia foi realizada a 3ª Jornada do Sommelier, com assuntos relacionados à sustentabilidade da cadeia vitivinícola e a segunda feira de vinhos da ABS-RS. Buske, 32 anos, atua há quase uma década no Restaurante Braziolli, de Gramado, na Serra Gaúcha. Segundo ele o que o motivou a voltar a concorrer foi se desafiar a evoluir ainda mais, e também se preparar para o concurso de melhor Sommelier do Brasil que será realizado no segundo semestre. 

“Esse prêmio serve como um estímulo para continuar estudando. Participo desde a primeira edição e a cada ano o nível está mais elevado. É sempre muito difícil administrar o tempo, sob pressão e exercer o serviço do vinho com os desafios que foram colocados”, resumiu. Eleito o melhor Sommelier do Brasil em 2022, Wallace Gonçalves Neves, presente no evento, afirmou que a região Sul poderá ter o melhor profissional da categoria nos próximos anos, tendo em vista o trabalho de formação que a ABS-RS vem exercendo. O bicampeão iniciou a carreira como garçom e atualmente está na gerência do restaurante. Ele conta que faz parte do seu dia a dia a condução de um serviço formal, como é exigido no concurso, mas que os elementos-surpresas que foram colocados acabaram trazendo dificuldades extras na final. “É importante que as empresas valorizem a profissão do Sommelier porque ela é fundamental para que se amplie a cultura do vinho no país. Com mais conhecimento teremos um mercado mais maduro em todas as pontas”, defendeu. Antes de anunciar o vencedor, o presidente da ABS-RS, Júlio César Kunz, destacou a coragem dos finalistas em se colocarem à prova. Segundo ele, a profissão de Sommelier exige que os profissionais se exponham e quem ganham são os consumidores por contarem com um serviço com excelência cada vez maior.

Assumindo um protagonismo em assuntos que afetam todo o setor vinícola brasileiro, a ABS-RS promoveu a 3ª Jornada do Sommelier. Temas como governança, compliance e ESG, alçados à pauta nacional nos últimos meses, foram expostos por representantes brasileiros e estrangeiros, com exemplos, projetos que estão sendo desenvolvidos e metas para os próximos anos. Abrindo o painel “Equidade no vinho: boas práticas do vinhedo à taça”, Erica Taylor, diretora geral da South African Sommeliers Association (SASA), fez um resgate histórico da vitivinicultura do país, que passou por desafios como o Apartheid, crises hídricas e a própria pandemia que aceleraram a busca por um modelo de produção sustentável. Erica abordou as certificações que ajudam a conciliar os cuidados com o meio ambiente associadas ao foco na produção de vinhos premium. “Hoje temos cerca de 45% dos vinhedos qualificados para receber as certificações de sustentabilidade no país. Não há como ter acesso e conquistar mercados premium, como a Europa, sem uma robusta agenda ESG”, detalhou.

No painel “Vitivinicultura Sustentável: o Caminho para um Futuro Responsável”, Lucia Bentancor de León, inspetora do Instituto Nacional de Vitivinicultura do Uruguai (Inavi), detalhou de que forma o país vem trabalhando no fomento à produção sustentável desde 2018 e que deverá certificar todas as vinícolas até o próximo ano. Ela informou que o próprio INAVI subsidia com US$ 750 propriedades de até 5 hectares e com US$ 1 mil para vinhedos acima de 50 hectares. “Esse trabalho de certificação está alicerçado em promover segurança alimentar, responsabilidade social e sustentabilidade ambiental e econômica. Um dos focos é reduzir o impacto da produção de uvas ao meio ambiente, além de atender às exigências que o próprio mercado vem tomando quanto às práticas agrícolas”, contextualizou.

Previsão foi feita por Wallace Gonçalves Neves, o melhor profissional do Brasil em 2022, durante a 3ª Jornada do Sommelier promovida pela ABS-RS. Concurso consagrou Luis Gustavo da Silva Buske como bicampeão no estado

Sul concentra maioria das indicações geográficas do vinho brasileiro

Brasil tem dez regiões produtoras da bebida protegidas por indicação de procedência e denominação de origem

O vinho do Vale dos Vinhedos: o primeiro terroir a ser protegido no país

O Brasil conta atualmente com dez territórios reconhecidos pela notoriedade na fabricação do vinho (indicação de procedência) ou pelas características únicas da bebida, resultado do meio geográfico – elementos naturais como clima, solo e altitude, combinados com o conhecimento humano – configurando uma denominação de origem. A região Sul concentra maioria das indicações geográficas do vinho brasileiro. Do total, seis ficam no Rio Grande do Sul, estado com maior produção e tradição vinícola do país, e uma em Bituruna, no Paraná, além dos Vinhos de Altitude e o Vale da Uva Goethe, ambas em Santa Catarina (veja detalhes no infográfico a seguir). Recentemente Pinto Bandeira também ganhou o status de Denominação de Origem.

O vinho do Vale: o primeiro terroir a ser protegido
Poucas invenções são tão entrelaçadas às mãos do criador e à terra onde nascem e poucas se misturam tanto à história da humanidade como o vinho. Com o Vale dos Vinhedos, não foi diferente. A arte de fazer vinhos brasileiros foi escrita com a tinta da imigração. O ano era 1875. Milhares de italianos cruzaram o Atlântico para encontrar na Serra Gaúcha paisagens muito semelhantes às suas origens. Vinham principalmente da Lombardia, Tirol e Vêneto. O ciclo imperial de imigração de Dom Pedro II abrira os portos para europeus num esforço de povoar áreas desabitadas, incluindo o Rio Grande do Sul. Até 1914, acredita-se que 84 mil italianos se instalaram no estado. Mais do que pessoas em movimento, imigrações transferem modos de viver. O Vale dos Vinhedos, que só foi assim chamado mais de 100 anos depois, é equação perfeita da cultura italiana em solo brasileiro. Não foi a primeira tentativa de plantar uvas no Rio Grande do Sul.

Nos idos de 1600, jesuítas portugueses trouxeram videiras espanholas. A viticultura desapareceu junto com os padres após a chegada dos bandeirantes. Um século mais tarde, portugueses tentaram novamente, desta vez com vinhas de origem lusitana, mas elas não se adaptaram ao clima. As primeiras videiras de fato produtivas eram de origem americana, do tipo Isabel, e foram cultivadas por imigrantes alemães. Com base nessa experiência, os italianos conseguiram reproduzir no Brasil o costume de criar uvas. A princípio, para subsistência e comercialização. Os vinhos só eram feitos para consumo próprio. Foi assim por longos anos, até mais ou menos a década de 1980, com a profissionalização de vinícolas maiores.

A abertura do mercado para importações na década de 1990 foi tanto um baque quanto uma alavanca para o vinho brasileiro. As vinícolas familiares surgiram como alternativas para as propriedades que tradicionalmente plantavam uvas para revender às cooperativas e estavam sendo afetadas pela crise. Outros dois fatores contribuíram para a proliferação de vinícolas. As grandes modernizaram a produção e o vinho nacional deu um salto, atraindo atenção internacional. A década de 1990 também marcou o começo do flerte do paladar brasileiro com o vinho em meio ao que ficou conhecido como paradoxo francês, em que cientistas discutiam o papel benéfico do vinho tinto na saúde de um povo que, tradicionalmente, consome muita gordura.

O Julgamento de Paris
A importância de criar um ecossitema dedicado ao vinho ficou evidente diante do sucesso extraordinário do Napa Valley, polo viniviticultor da Califórnia, nos Estados Unidos. O Napa é um divisor de águas para a explosão de vinhos do Mundo Novo e conquistou seu lugar no mapa depois que o Cabernet Sauvignon da Stag’s Leap, de Warren Winiarski, desbancou concorrentes franceses de Bordeaux e Borgonha, celeiros de rótulos centenários, em uma degustação às cegas em 1976. O caso ficou conhecido como O Julgamento de Paris mudou radicalmente a visão que o mundo e os próprios norte-americanos tinham do vinho californiano. Numa visita ao Napa Valley, os produtores brasileiros, liderados por vinícolas tradicionais, como Miolo, Casa Valduga, Dom Cândido e Dom Laurindo, se deram conta da necessidade de investir no fortalecimento da identidade do Vale dos Vinhedos, promovendo o enoturismo e trabalhando a reputação do vinho de lá. Eis que entra em cena a indicação geográfica.

O reconhecimento da qualidade do vinho da região foi uma busca coletiva, que começou a se estruturar oficialmente em 1995, com a fundação da Associação de Produtores de Vinho Fino do Vale dos Vinhedos (Aprovale). No ano seguinte, com a aprovação da Lei de Propriedade Industrial (LPI) e a estreia da legislação brasileira sobre indicação geográfica, o movimento ganhou fôlego. No ano 2000, a associação entrou com pedido de Indicação de Procedência para vinhos tintos, brancos e espumantes da região. O registro veio dois anos depois e o Vale dos Vinhedos se tornou a primeira indicação geográfica brasileira. Quem vive na região se lembra das provas e concursos que se seguiram à conquista, com mais 60 rótulos com Indicação de Procedência disputando para ver quem era o melhor. A Denominação de Origem dos vinhos e espumantes serviria de prova para o mercado, sobretudo o nacional, que o produto brasileiro tem qualidade. Ainda que em concursos e listas internacionais, os rótulos brasileiros pontuassem bem (e cada vez melhor, diga-se de passagem), chamando a atenção de compradores estrangeiros, o Brasil teimava em associar vinho nacional à baixa qualidade. A Denominação de Origem saiu do papel em 2012. A Aprovale conseguiu demonstrar que as uvas Merlot e Chardonnay cultivadas no perímetro do Vale dos Vinhedos têm características únicas. As regras para designar uma Denominação de Origem são bastante rígidas. Só é permitido utilizar uvas cultivadas dentro dos limites do Vale e elas devem ser plantadas exclusivamente em espaldeiras, de maneira a crescer no sentido vertical, por exemplo.

Com Agência CNI

Brasil tem dez regiões produtoras da bebida protegidas por indicação de procedência e denominação de origem

Itapoá bate recorde histórico de movimentação pela segunda vez no ano

O mercado tem mostrado sinais de aquecimento

O terminal catarinense tem feito grandes investimentos em sua infraestrutura

Em maio, o Porto Itapoá bateu seu recorde histórico de movimentos em um único mês, chegando a 98.113 TEUs (Twenty-feet Equivalent Unit – uma unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) movimentados. Essa é a segunda vez no ano que o terminal catarinense supera sua marca histórica: em março foram 92.662 TEUs. Para o presidente do Porto Itapoá, Cássio Schreiner, o mercado tem mostrado sinais de aquecimento. “Embora essa seja uma análise preliminar, nos mostra que precisamos estar preparados para uma demanda maior”, reflete. Tanto é assim que as movimentações no Gate, porta de entrada e saída de caminhões, também foi recorde no mês de maio. Foram registrados 44.159 movimentos, contra 42.921 registrados em março deste ano.

Outra importante marca registrada em maio foi a movimentação de cargas LCL (Less Container Load, ou quando o contêiner contém cargas compartilhadas por mais de um cliente), a maior dos últimos quatro anos. Em maio foram movimentados 28 contêineres LCL, somando 147 diferentes transações. O terminal catarinense tem feito grandes investimentos em sua infraestrutura. No ano passado passou a operar mais 50 mil metros quadrados em seu pátio, totalizando uma capacidade estática para até 22 mil contêineres. O projeto de expansão prevê ainda mais 150mil metros quadrados de pátio, totalizando 450 mil metros quadrados em sua fase final. O aporte total foi de R$ 750 milhões. O porto também tem investido em tecnologia: adquiriu dez novos RTGs (guindastes sobre pneus) e será o primeiro a operar esses equipamentos por controle remoto, híbridos, em toda a América do Sul. O investimento é de mais de R$ 120 milhões.

“Temos um grande desafio no âmbito estrutural, sobretudo no que se refere ao canal de acesso da Baía da Babitonga, bem como a duplicação das rodovias SC 416 e SC 417”, avalia o presidente do Porto Itapoá. “Estamos dialogando em diversas esferas para tornar a dragagem do canal de acesso à Baía da Babitonga e a adequação dos acessos rodoviários uma realidade”, emenda. Itapoá é a 229ª maior empresa da região e também a 48ª maior de Santa Catarina, de acordo com o ranking 500 MAIORES DO SUL, publicado pelo Grupo AMANHÃ com o apoio técnico da PwC. Leia o anuário completo clicando aqui, mediante pequeno cadastro.

O mercado tem mostrado sinais de aquecimento

Pacote automotivo: especialista elogia programa, mas questiona prazo

Medida foi anunciada como socorro ao setor

No setor de caminhões e ônibus, o prazo limitado do programa pode surtir o efeito contrário, resultando no endividamento de transportadoras e de motoristas sem reservas financeiras

Anunciado como medida de socorro ao setor automotivo, o pacote que barateia temporariamente a compra de carros, ônibus e caminhões pode não surtir o efeito esperado sobre a indústria. Segundo especialistas, a curta duração e o volume de recursos do programa de ajuda podem resultar num alcance limitado, que pouco mudará a situação do setor. Professor de economia do Ibmec, Gilberto Braga elogia o programa, mas questiona o prazo limitado de quatro meses e o montante de R$ 1,5 bilhão, que considera baixo. “O ideal seria que o programa tivesse um prazo maior para que o efeito fosse mais duradouro”, defende Braga. Segundo ele, o setor automotivo ainda tem peso grande na economia e na geração de empregos e demandaria mais atenção neste momento de juros altos e de restrição ao crédito.

De acordo com o professor, no setor de caminhões e ônibus, o prazo limitado do programa pode surtir o efeito contrário, resultando no endividamento de transportadoras e de motoristas sem reservas financeiras e que serão pressionados a tomar uma decisão rápida sobre a renovação da frota. “Um caminhão tem uma vida útil muito longa. Portanto, uma decisão com impacto sobre toda uma vida produtiva não pode ser tomada num curto espaço de tempo”, avalia. Ele elogiou o formato do programa, principalmente a decisão de combinar critérios sociais, ambientais e o peso na indústria de determinada marca de veículo para estabelecer os descontos, que variam de R$ 2 mil a R$ 8 mil. Segundo Braga, o pacote está na direção certa, mas precisaria ser ampliado para surtir efeito duradouro sobre a indústria automotiva.

“Considero o pacote positivo porque acumula elementos distintos que atendem às reivindicações de um setor importante para a economia, que ainda tem as rodovias como principal eixo modal”, afirma Braga. A concessão de descontos está baseada num sistema de pontuação que avalia três critérios. Preços baixos (para priorizar os modelos populares), equipamentos antipoluentes (para incentivar a compra de modelos que poluem menos) e geração de empregos na indústria e uso de peças nacionais (para premiar as marcas com maior peso da indústria nacional). Para ônibus e caminhões, o desconto está atrelado ao compromisso de mandar veículos com mais de 20 anos de uso para a reciclagem, sendo necessária a comprovação de que o comprador enviou o veículo antigo para o desmonte.

Créditos tributários
Constituído sob a forma de créditos tributários (desconto em tributos futuros), o pacote de ajuda consumirá R$ 1,5 bilhão – R$ 700 milhões para caminhões, R$ 500 milhões para carros e R$ 300 milhões para ônibus e vans. Diferentemente dos programas anteriores, em que o governo reduzia o IPI, mas não tinha garantia de que os fabricantes repassariam o desconto, o novo pacote estimula que as concessionárias vendam mais barato e repassem o crédito tributário à indústria. Diretora da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão consultivo do Senado que faz análises econômicas, a economista Vilma Pinto diz que o sistema de crédito tributário representa uma novidade. Ela considera o volume de R$ 1,5 bilhão baixo diante das receitas totais do governo (estimadas em R$ 1,9 trilhão pelo Ministério do Planejamento). No entanto, ela alerta que o pacote vai na direção contrária do novo arcabouço fiscal.

“De fato, não haverá impacto fiscal por causa da reoneração parcial do diesel [que terão o PIS e a Cofins aumentados em R$ 0,11 daqui a três meses], mas esse R$ 1,5 bilhão para o programa, cujo impacto foi neutralizado neste momento, poderá fazer falta no futuro porque o governo se comprometeu em buscar receitas para cumprir as metas ambiciosas propostas no novo arcabouço”, comenta a diretora da IFI. Segundo Vilma, o órgão ainda não fez os cálculos de quanto o programa deverá gerar de empregos nem do impacto sobre o PIB. Em relação à inflação, ela diz que o impacto do aumento do diesel sobre os índices de preços pode ser baixo por causa do barateamento dos veículos.

Inicialmente restrito aos carros populares, o programa atraiu críticas de ambientalistas porque não tinha medidas de estímulo ao transporte coletivo. A decisão de incluir a renovação de ônibus, caminhões e vans, destaca o professor Gilberto Braga, reforçou um caráter ambiental ao programa. Segundo ele, uma duração maior para a renovação de veículos pesados favoreceria a transição energética, mesmo estimulando, neste momento, a compra de veículos movidos a diesel. Segundo o professor, o ideal seria que o incentivo de curto prazo fosse conciliado com uma política industrial de produção de veículos elétricos. “A transição para os veículos elétricos é gradual. Neste momento, é onerosa para o público. Enquanto não cair os preços dos carros elétricos ou híbridos, os carros tradicionais continuarão a ser competitivos”, ressalta. “Na verdade, não vejo como seria possível abrir mão da cadeia produtiva tradicional da indústria automotiva, que é um dos pilares da economia do país”, sublinha. O professor cita o exemplo do modelo Renault Kwid, fabricado pela multinacional francesa no Paraná. Segundo Braga, enquanto a versão tradicional custa em torno de R$ 60 mil (já com o desconto do pacote), a versão elétrica custa R$ 140 mil. “Esse é o carro elétrico mais barato do Brasil no momento, inacessível para a maioria da população”, evidencia.

Com Agência Brasil

Medida foi anunciada como socorro ao setor

Brasileiros ainda não sacaram R$ 7 bilhões de valores a receber

Sistema do BC já devolveu R$ 3,9 bilhões em recursos esquecidos

A maior parte das pessoas e empresas que ainda não fizeram o saque têm direito a pequenas quantias

Os brasileiros ainda não sacaram R$ 7 bilhões em recursos esquecidos no sistema financeiro, divulgou o Banco Central (BC). Até agora, o Sistema de Valores a Receber (SVR) devolveu R$ 3,9 bilhões. Em relação ao número de beneficiários, 13.970.528 correntistas resgataram valores. Isso representa apenas 35,9% do total de 38.876.360 correntistas incluídos na lista desde o início do programa, em fevereiro do ano passado. Entre os que já retiraram valores, 13.477.382 são pessoas físicas e 493.146, pessoas jurídicas. Entre os que ainda não fizeram o resgate, 36.120.242 são pessoas físicas e 2.756.118, pessoas jurídicas.

A maior parte das pessoas e empresas que ainda não fizeram o saque têm direito a pequenas quantias. Os valores a receber de até R$ 10 concentram 62,6% dos beneficiários. Os valores entre R$ 10,01 e R$ 100 correspondem a 25,2% dos correntistas. As quantias entre R$ 100,01 e R$ 1 mil representam 10,3% dos clientes. Só 1,7% tem direito a receber mais de R$ 1 mil. Depois de ficar fora do ar por quase um ano, o SVR foi reaberto em março, com novas fontes de recursos, um novo sistema de agendamento e a possibilidade de resgate de valores de pessoas falecidas. Em março, informou o BC, foram resgatados R$ 505 milhões esquecidos. Em abril, o valor caiu para R$ 259 milhões.

A nova fase do SVR tem novidades importantes, como impressão de telas e de protocolos de solicitação para compartilhamento no WhatsApp e inclusão de todos os tipos de valores previstos na norma do SVR. Também existe uma sala de espera virtual, que permite que todos os usuários façam a consulta no mesmo dia, sem a necessidade de um cronograma por ano de nascimento ou de fundação da empresa. Além dessas melhorias, há a possibilidade de consulta a valores de pessoa falecida, com acesso para herdeiro, testamentário, inventariante ou representante legal. Assim como nas consultas a pessoas vidas, o sistema informa a instituição responsável pelo valor e a faixa de valor. Também há mais transparência para quem tem conta conjunta. Se um dos titulares pedir o resgate de um valor esquecido, o outro, ao entrar no sistema, conseguirá ver as informações: como valor, data e CPF de quem fez o pedido.

Também foram incluídas fontes de recursos esquecidos que não estavam nos lotes do ano passado. Foram acrescentadas contas de pagamento pré ou pós-paga encerradas, contas de registro mantidas por corretoras e distribuidoras encerradas e outros recursos disponíveis nas instituições para devolução. O Banco Central aconselha o correntista a ter cuidado com golpes de estelionatários que alegam fazer a intermediação para supostos resgates de valores esquecidos. O órgão ressalta que todos os serviços do Valores a Receber são totalmente gratuitos, que não envia links nem entra em contato para tratar sobre valores a receber ou para confirmar dados pessoais. O BC também esclarece que apenas a instituição financeira que aparece na consulta do Sistema de Valores a Receber pode contatar o cidadão. O órgão também pede que nenhum cidadão forneça senhas e esclarece que ninguém está autorizado a fazer tal tipo de pedido.

Com Agência Brasil

Sistema do BC já devolveu R$ 3,9 bilhões em recursos esquecidos

Desenrola Brasil poderá reduzir em até 40% inadimplência no país

Congresso tem 90 dias para apreciar matéria

Redução da inadimplência deverá aumentar o movimento no comércio

A Medida Provisória (MP) 1.176/2023, que institui o Desenrola Brasil, o Programa Emergencial de Renegociação de Dívidas de Pessoas Físicas Inadimplentes, foi publicada no Diário Oficial de terça-feira (6) e tem efeitos imediatos. Mas, para se tornar lei, precisará ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional em até 90 dias. O programa pretende juntar devedores e credores a fim de que a dívida possa ser renegociada e a situação de inadimplência encerrada. Serão duas faixas. Na primeira, pessoas que ganham até dois salários mínimos ou quem esteja inscrito no Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal – e que foram negativas até 31 de dezembro de 2022 – poderão saldar suas dívidas de até R$ 5 mil. O pagamento poderá ser à vista ou parcelado em até 60 meses, com desconto e juros mais baixos. O dinheiro para pagar as dívidas pode ser obtido através de empréstimo com uma instituição financeira, o qual poderá ser garantido pelo Fundo de Garantia de Operações (FGO), do governo federal.

A segunda faixa, segundo o Ministério da Fazenda, é destinada somente a pessoas com dívidas no banco, que poderá oferecer a seus clientes a possibilidade de renegociação de forma direta. Essas operações não terão a garantia do Fundo FGO. Segundo o Ministério da Fazenda, o programa funcionará através de um leilão reverso entre credores, organizado por categoria de crédito, onde quem oferecer mais desconto será contemplado no programa, apresentará a dívida com desconto para renegociar com as pessoas físicas e contará com a garantia de que sua dívida será saldada. Já aqueles que oferecerem menos desconto ficarão de fora do programa. Por isso, é possível que o devedor não encontre todas suas dívidas para renegociar no Desenrola.

O diretor de relações institucionais da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), Henrique Lian, considera o programa “de extrema relevância no atual contexto de superendividamento de expressiva parcela da população brasileira”. Para a economista Carla Beni, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a medida é importante para que as pessoas com renda mais baixa possam “voltar a respirar e até poder voltar a consumir”. “A inadimplência dificulta muito a vida da pessoa, inclusive afeta até a saúde mental”, afirma. Ela acredita que o programa poderá reduzir em até 40% a inadimplência no país, que hoje atinge 66 milhões de pessoas, ou 40,6% dos brasileiros adultos, segundo dados divulgados em maio pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil). Carla destaca, no entanto, que será importante pensar em campanhas para garantir a adesão dos devedores ao programa.

“Vai precisar de orientação e muita campanha de divulgação, pois você precisará de um celular e tudo vai ser feito online. É preciso aguardar os próximos passos para ver como vai ser feita a utilização do aplicativo, como isso vai ser inserido na plataforma e como vai ser a facilidade da adesão. Como temos uma experiência com o Pix e o Brasil teve uma adesão espetacular, acredito que a gente tenha não só uma condição técnica e tecnológica, como a adesão da própria população [ao novo programa]. Ela já está acostumada a usar o celular”, salienta. Izis Ferreira, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), acredita que o programa poderá dar um impulso no consumo das famílias brasileiras. “O crédito funciona hoje como importante condicionante do consumo, não só de produtos que precisam de prazo para pagamento, de maior valor agregado, mas até produtos do dia a dia e serviços que são consumidos de forma imediata. Então, o crédito hoje é um suporte para o consumo de produtos de primeira necessidade e de maior valor agregado”, destaca.

Por meio de nota, a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) informou que o programa está em linha com as tratativas feitas nos últimos meses entre a instituição e o governo federal.”Quando entrar em operação, os bancos darão sua contribuição para que o Desenrola reduza o número de consumidores negativados e ajude milhões de cidadãos a diminuírem suas dívidas”, afirma a nota da Febraban. Na avaliação de Ione Amorim, coordenadora de serviços financeiros do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a urgência com que o Desenrola Brasil foi lançado é importante, mas faltou um pouco mais de diálogo com a sociedade civil. E, por isso, há algumas dúvidas sobre o programa. Ela questiona, por exemplo, como o consumidor que recorrer ao Desenrola Brasil será tratado pela instituição financeira no futuro. “Hoje, quando a gente tem um desconto muito grande [num banco], esse consumidor fica com uma restrição lá dentro daquela instituição, se ele vai tentar de novo um crédito”, opina. Além disso, Ione chama a atenção para as dívidas que já estão prescritas e que nem deveriam mais ser cobradas, mas que poderão entrar no Desenrola. “Quem fará essa análise?”, questiona.

Outro ponto destacado por ela é sobre o valor dos descontos. “Essa população de baixa renda é extremamente assediada por empresas que oferecem crédito extremamente predatórios [com taxas de juros muito altas]. Então, qual o valor desses contratos que serão objeto desse acordo? O valor integral já incluindo as taxas de juros abusivas? Quando você fala do desconto, e não tem parâmetro, qual é o referencial?”, pergunta. Para além do programa, uma causa de preocupação para Ione refere-se a futuras dívidas que podem voltar a envolver o consumidor depois que o programa for encerrado, em dezembro deste ano. “Esse consumidor, sem nenhum preparo, que foi assediado [para contrair o crédito], continua refém dos mesmos tipos de abordagem. É muito provável que parte desse público, até chegar dezembro, que é o limite desse programa, ele estará de novo com uma série de dívidas. Uma parcela muito grande desse segmento, que ganha até dois salários mínimos, é de aposentados e pensionistas, que são muito expostos à questão do crédito consignado”, alerta Ione.

Porém, Ione espera que a regulamentação a ser feita pelo Ministério da Fazenda e a apreciação da matéria pelo Congresso Nacional abram espaço para mais diálogo com as entidades de defesa do consumidor. Henrique Lian, da Proteste, disse acreditar que o programa poderá ser, futuramente, complementado “com ações de natureza regulatória e educativa com vistas à prevenção da insolvência recorrente.” A preocupação é a mesma de Izis Ferreira. Para ela, caso não haja um programa de educação financeira para as famílias, há o risco de a inadimplência continuar sendo um problema cíclico no país, com períodos de melhora e outros de piora.Segundo a CNC, em maio deste ano, a quantidade de pessoas com dívidas há mais de 90 dias representou 45,7% dos inadimplentes. Essa é a maior taxa para um mês em três anos e vem crescendo desde dezembro de 2022 (43,9%).

“O crédito ganhou relevância no pós-pandemia como condicionante do consumo. As pessoas estão concentrando muito gasto no cartão de crédito. Diante desse contexto, a preocupação que a gente tem que ter é: a gente vai resgatar esse consumidor da inadimplência, mas depois será que ele vai entender que precisa ter um pouco mais de cautela, programação e planejamento ao usar o crédito? Ao mesmo tempo que o credor faz a renegociação, ele tem que, forma intensiva, estimular a conscientização financeira desse consumidor. Senão, a gente vai continuar vendo esse ciclo de inadimplência”, afirma a economista. Antes da edição da MP do Desenrola Brasil, a CNC estimava que o percentual de famílias com dívida há mais de 90 dias só cairia no final do dia, fechando 2023 em 44,5%. Com o lançamento do programa, no entanto, a confederação fará uma nova previsão.

Segundo Izis, apesar de o programa ser focado mais no público de renda mais baixa, a inadimplência tem crescido também na classe média. Por isso, para ela seria importante estimular a renegociação de dívidas também para essa faixa de renda. Para aqueles que têm dificuldade em manter o orçamento sob controle, a economista Carla Beni tem duas dicas: a primeira é conversar com todos os membros da família para que se entenda até quanto pode ser gasto sem comprometer a renda. A segunda é anotar todas as contas que precisam ser pagas. “As pessoas deveriam conversar mais dentro das famílias sobre suas contas a pagar e suas dívidas”, explica Carla. “E também fazer uma lista das contas a pagar. Um simples papel com caneta ajuda muito a colocar todas as contas que aquela família tem para pagar que já estão comprometidas nos meses futuros. Isso pode até ser colocado na porta da geladeira. Isso ajuda com que a família toda caminhe no mesmo sentido, pois a redução das dívidas traz um alívio, um conforto e uma qualidade de vida para todos da casa”, aconselha. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, na terça-feira (6), que o Desenrola terá um segmento de educação financeira. Na segunda-feira (5), Haddad havia dito que o programa deverá entrar em vigor em julho.

Com Agência Brasil

Congresso tem 90 dias para apreciar matéria

Exportadores brasileiros relatam impactos do novo sistema argentino de importação

Medidas adotadas pela Argentina nas operações de importação provocaram forte impacto nas vendas para o país vizinho

Medidas adotadas pela Argentina nas operações de importação provocaram forte impacto nas vendas brasileiras para o país

As recentes medidas adotadas pela Argentina nas operações de importação provocaram forte impacto nas vendas brasileiras para o país. Como tentativa de implementar um sistema de maior controle da cadeia de abastecimento e monitoramento das operações de comércio exterior, o governo argentino adotou o Sistema de Importações da República da Argentina (SIRA), em vigor desde outubro de 2022. O novo modelo restringiu a concessão de licenças não automáticas (LNAs) e o acesso ao mercado de câmbio. A licença não automática é um instrumento utilizado por países para controlar a entrada de produtos em seu território. Em linhas gerais, significa que o exportador brasileiro só poderá embarcar seu produto quando receber a licença do governo argentino. Em consulta realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 252 exportadoras brasileiras, 77% das empresas indicaram que tiveram impacto negativo nas operações de exportações após a criação do SIRA – e destas, 84% apontaram que houve redução no valor exportado para a Argentina.

A consulta empresarial foi feita pela CNI em abril deste ano para analisar os primeiros seis meses do SIRA (outubro de 2022 a março de 2023) e os efeitos de sua implementação sobre o embarque de bens para a Argentina. Dos exportadores que indicaram queda no valor exportado após a implementação do novo sistema, 49% apontaram que a redução nas vendas para a Argentina no período foi acima de 41%. “Os resultados da consulta confirmam os desafios enfrentados pelas empresas brasileiras e, ao mesmo tempo, a necessidade de se achar soluções para facilitar e aprofundar as relações econômicas e comerciais com um parceiro tão relevante para a indústria brasileira. As exportações e os investimentos entre Brasil e Argentina são fundamentais para expandir a capacidade produtiva, fomentar a inovação, criar empregos de melhor qualidade e estimular o crescimento econômico em ambos os países”, avalia a gerente de comércio e integração internacional da CNI, Constanza Negri.

Com a entrada em vigor do novo sistema, a lista de mercadorias sujeitas às licenças não automáticas saltou de 1.474, no início de 2020, para 4.193, no final de 2022 – e 99% dos produtos são da indústria de transformação. Considerando os dados de comércio do ano passado, 59% do valor total das exportações brasileiras à Argentina foram expostos a essa medida. Questionados sobre o principal problema relacionado às licenças não automáticas, 82% dos exportadores consultados que tiveram impacto negativo nas operações indicaram a demora na aprovação. O segundo problema, apontado por 55% das empresas, foi a falta de transparência e critérios para aprovação. Em terceiro lugar foi listado o problema de excesso de burocracia, com solicitação de informações, documentos e formulários adicionais – assinalado por 44% dos exportadores. Das empresas que informaram ter sofrido impacto negativo nas operações de exportação, 51% indicaram que o tempo médio para a aprovação das licenças não automáticas supera os 60 dias. Somente 14% das empresas apontaram um tempo médio de até 30 dias.

As novas restrições para importação na Argentina incluem também a aprovação do Banco Central da República da Argentina (BCRA) para pagamento dos produtos que entram no país. Em relação a esse processo, os três principais problemas apontados pelos exportadores consultados são os prazos para pagamento muito longos (79%), a burocracia para a liberação de divisas, mesmo após cumprimento do prazo estabelecido (55%), e a alteração e extensão de prazos após aprovação do SIRA (42%). Além disso, 68% das empresas consultadas indicaram dificuldade no pagamento, independentemente da modalidade usada nas operações. A consulta com empresários avaliou também o impacto das mudanças do SIRA nos negócios dos exportadores brasileiros. Em relação a este fator, o principal problema apontado pelos consultados no período de seis meses foi a imprevisibilidade no fechamento de negócios (86%), seguido pela perda de oportunidades, com clientes que deixam de comprar (81%), e pela perda de oportunidades, com clientes que cancelam pedidos (47%).

Medidas adotadas pela Argentina nas operações de importação provocaram forte impacto nas vendas para o país vizinho

Meber anuncia mudanças em sua governança corporativa

Novas diretorias executiva e industrial passam a responder pela empresa

Diretor executivo, Sérgio Torres, e diretor industrial, Everton Craco

A Meber vem trabalhando em um consistente plano de práticas que atendem as exigências da ESG, visando a sua perpetuação enquanto negócio sólido e sustentável. Em razão disso, desde meados do mês de maio, os então diretores Carlos Bertuol e Marcio Chiaramonte passaram a integrar o conselho de administração da empresa, também composto por Aristides Bertuol Netto e Márcio Otton. O conselho é presidido por Carlos Bertuol. A diretoria executiva da Meber passa a ser ocupada por Sérgio Torres, executivo que já atuava como superintendente da empresa. Além da gestão geral dos negócios, Torres tem sob sua alçada as áreas financeira, vendas, estratégia e marketing, TI e recursos humanos. Outra mudança ocorre na diretoria industrial, assumida por Everton Craco, que responde pelos departamentos de suprimentos, produção, engenharia e segurança. As novidades institucionais da Meber chegam, também, ao mercado, com o anúncio de Itamar Rech como gerente nacional de vendas. Colaborador da empresa desde 2014, desenvolveu sua carreira na área comercial, passando por várias experiências em posições e locais diferentes.

Novas diretorias executiva e industrial passam a responder pela empresa

Ih, cadê?! O comandante sumiu!

É possível abolir a figura do chefe?

O unbossing – termo para definir empresas que dispensam a figura do chefe e tomam as decisões de maneira colegiada – pode oferecer duas vantagens que o justifiquem

Não dá para falar em um movimento, até porque faltam exemplos claros de adeptos da novidade. Mas o unbossingtermo para definir empresas que dispensam a figura do chefe e tomam as decisões de maneira colegiada – propicia algumas reflexões. A primeira: abolir chefias significa eliminar a hierarquia? E, em caso positivo, é possível a uma empresa conservar-se “horizontal” mesmo depois de crescer? A julgar pelo que escreveu Harold J. Leavitt na Harvard Business Review de março de 2003, não.Segundo o especialista, a hierarquia “talvez seja inerente a nossa natureza”, pois atende aos anseios humanos por ordem e segurança (p.72). E se companhias embrionárias valorizam a agilidade, à medida que crescem clamam por estabilidade e previsibilidade. É justamente nesse cenário que a hierarquia se impõe como “o melhor mecanismo (…) para consecução de tarefas complexas” (p. 76).

Uma outra especialista vai no mesmo sentido. “Tudo bem quanto às equipes autogerenciadas quando tudo é objetivo (…). No caso de tarefas complexas, porém, você precisa de alguém para gerenciá-las” (Lynda Grattom, in: Stern & Cooper, “Mitos da Gestão”, Autêntica Business, 2018, p. 215). Como e por que, então, o unbossing poderia prosperar? Bem, uma organização pode dispensar um comando formal, mas conservar lideranças tácitas. Sempre há um integrante da equipe a quem se recorre em caso de dúvidas sobre decisões importantes, questões técnicas sensíveis ou meros dilemas operacionais. Este pode não ser o chefe oficial numa startup, mas provavelmente acabará alçado à condição quando a companhia crescer. E, numa empresa madura, funciona como uma referência incontornável, seja pela expertise, seja pelo tempo de casa. E mesmo que eventualmente não detenha o título, detém o status. Há, portanto, uma hierarquia.

A despeito dessas limitações, o unbossing pode oferecer duas vantagens que o justifiquem. A primeira é a proximidade com a execução. A hierarquia põe gestores a uma distância segura (e perigosa) do dia a dia, apartando-os da vida real. E, segundo Henry Mintzberg, “o topo é o pior lugar de onde gerenciar uma organização”. A solução? “Tente, em vez disso, o chão” (Stern & Cooper, p. 142). Nada mais ‘chão’ do que unbossing e assemelhados. A segunda tem a ver com a prática de uma política salarial menos desigual. Diferença elevada entre os maiores salários e a média da companhia “gera excesso de competição interna, disputas agressivas por cargos e poder, desmotivação e sentimentos de injustiça, (…) além de diminuição da empatia e da coesão da equipe”, disse um especialista entrevistado pela Folha de São Paulo (07/04/2023). É de supor que o unbossing e seus genéricos contemplem “horizontalidade salarial” também, o que fortaleceria o espírito-de-corpo. Mas já que o assunto é falta de chefe, vale perguntar: e a ausência de dono, como afeta uma companhia? Como fica a cultura organizacional numa empresa sem controladores? Assunto para o post da próxima semana.

É possível abolir a figura do chefe?

Industriais alegam que taxas de juros dificultam financiamentos

Pesquisa da CNI revela que as empresas consideram as exigências de garantias reais como um entrave relevante para o acesso ao crédito

Aumentar a viabilidade dos instrumentos do mercado de capitais ainda é uma alternativa muito pouco percebida como formas de lidar com o problema de crédito

A Sondagem Especial Condições de Acesso ao Crédito, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta que, entre as empresas com dificuldade de acessar o crédito de curto ou médio prazo, 71% afirmaram que as taxas de juros foram o principal entrave, 25% criticam as exigências de garantias reais e 16% apontaram a falta de linhas adequadas à necessidade da empresa. A pesquisa ouviu 2.022 empresários sobre as condições de crédito em um período de seis meses, entre setembro de 2022 e fevereiro de 2023.Além disso, 47% das empresas não buscaram contratar nem renovar seus financiamentos de curto ou médio prazo, 6% não conseguiram contratar nem renovar e apenas 28% contrataram ou renovaram linha de crédito. No caso do crédito de longo prazo, o cenário é pior: 58% não procuraram contratar nem renovar e apenas 14% conseguiram contratar ou renovar.

De acordo com o gerente de política econômica da CNI, Fábio Guerra, o crédito está mais caro e restrito, tanto para as empresas como para os consumidores, principalmente com os bancos mais cautelosos nas concessões. Entre as empresas que afirmaram ter tentado contratar ou renovar o crédito, 19% não conseguiram, no caso do crédito de curto ou médio prazo. E no caso do crédito de longo prazo, o percentual de frustração foi de 37%. “Observamos um cenário mais seletivo e exigente para quem busca recursos financeiros. Isso também explica o fato de cerca de metade das empresas não terem tentado renovar ou buscar novos empréstimos e uma parcela significativa ter renovado em condições piores ou muito piores. Também deve-se destacar que uma parte relevante das empresas que tentou renovar ou contratar crédito não conseguiu”, afirma o economista.

A pesquisa mostra que o crédito pode até ser um elemento essencial para ampliar o consumo e o investimento e fazer a roda da economia girar, mas a disponibilidade e as condições de acesso ao crédito não são proporcionais a sua importância. Pagar fornecedores e despesas com funcionários e adquirir matéria-prima foi a principal finalidade das operações de crédito de curto e médio prazo de 60% das empresas. Depois de capital de giro, 21% dos empresários apontaram que precisava do recurso para investir, seja em máquinas e equipamentos, instalações ou pesquisa e desenvolvimento. No crédito de longo prazo, 43% das empresas industriais apontaram que os recursos se destinavam a investimentos (sendo que 28% apontaram investimentos em máquinas e equipamentos, 13% em instalações e 2% em pesquisa e desenvolvimento). Em seguida, 28% das empresas industriais apontaram o capital de giro como finalidade dos recursos.

Para as indústrias, a alternativa mais apontada para contornar o problema de crédito foi a redução dos custos tributários e administrativos sobre o crédito, como o IOF, por exemplo. Essa solução foi indicada por 36% das empresas com problema de crédito de curto ou médio prazo e por 28% das empresas com problema de crédito de longo prazo. Em segundo lugar, aparece a ampliação das linhas públicas de crédito: 25% das empresas apontaram a alternativa para o crédito de curto/médio prazo e 27% delas para o crédito de longo prazo. Em terceiro, aparece a simplificação de exigências impostas pelas instituições financeiras, mencionada por 21% das empresas em ambas as modalidades de prazo.

Aumentar a viabilidade dos instrumentos do mercado de capitais e ampliar a atuação das fintechs no mercado de crédito, apesar de importantes, ainda são alternativas muito pouco percebidas pelas empresas industriais como formas de lidar com o problema de crédito. “A melhoria nas condições de oferta de garantias pelas empresas é uma agenda muito importante, que tem sido trabalhada e deve se intensificar. Nesse sentido, destacam-se aprimoramentos a dois programas criados na pandemia e que merecem ser fortalecidos, o Pronampe e o PEAC. Outra oportunidade de avanço é o PL 4.188/2021, que instituí o Novo Marco de Garantias”, destaca Guerra.

Pesquisa da CNI revela que as empresas consideram as exigências de garantias reais como um entrave relevante para o acesso ao crédito