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Legados e cicatrizes da pandemia

Pandemias são uma experiência de ruptura, um trauma que dura muito tempo

No domingo de Páscoa (17), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fez pronunciamento em rádio e TV anunciando o fim da emergência sanitária decorrente da pandemia de coronavírus. O próprio ministro afirmou, contudo, que “continuaremos convivendo com o vírus” – e, pode-se acrescentar, com algumas de suas consequências sociais e comportamentais. Várias delas foram antecipadas pelo antropólogo Michel Alcolforado em palestra a alunos de MBA da ESPM-Sul, em outubro de 2020. Vale recuperar trechos da fala de Alcolforado para ver como suas previsões vêm se confirmando – e ainda virão a se confirmar.

Toda pandemia é um trauma
“Pandemias são uma experiência de ruptura, um trauma que dura muito tempo. Mudam a nossa psique e reorganizam e transformam o mundo. O mundo que sai delas é um ‘mundo com sintomas’. Provocam mudanças atitudinais na política, no trabalho e no comportamento do consumidor. De qualquer pandemia, emergem quatro consequências: limpeza; individualismo e nacionalismo; controle e vigilância; e preocupação com a saúde”.

A obsessão com a limpeza
“Vamos sair com mais ‘nojinho’ desta pandemia. Dispensers de álcool gel continuarão. A SARS, doença respiratória que se disseminou pelo Oriente em 2002 e 2003, fez aumentar a quantidade de banhos na China e a venda de perfumes. Por quê? Porque doenças dão a sensação de sujeira. O banho serve para o sujeito se sentir limpo. E o perfume, para provar para os outros que está limpo. Mesmo produtos aparentemente não relacionados à assepsia assumem importância. Os aplicativos de vídeo-chamada e o comércio online, por exemplo, nos poupam da tarefa de encontrar outras pessoas e, assim, de colocarmos nossa saúde em risco. Tornam-se mediadores de segurança”.

Individualismo, regionalismo e nacionalismo
“Ninguém sai melhor de uma pandemia. O individualismo acirra-se. E o nacionalismo também. Marcas brasileiras e/ou que empregam brasileiros tendem a ser mais valorizadas. E o próprio bairrismo regionalista tende a ganhar espaço, pois funciona como âncora, como referência de estabilidade. Identidades locais funcionam como ‘checks de estabilidade’, uma forma de confirmar se o mundo continua igual”.

Controle, vigilância e liberdade
“Nos dispomos a dar um pouco de nossa liberdade para nos sentirmos seguros. Ou seja, abrimos mão de privacidade (o chamado passaporte vacinal provavelmente se encaixa nessa categoria). Depois de 11 de setembro, nunca mais uma viagem de avião foi a mesma”.

Saúde, saúde, saúde
“O sistema público de saúde da Inglaterra foi fruto da gripe espanhola. E agora, lembramo-nos da importância do SUS”.

E então, das consequências citadas por Alcolforado, quais você já observa ao seu redor? E a quais sua empresa tem de ficar atenta?

Legados e cicatrizes da pandemia

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