Lustrosas bolas de cristal estão em febril atividade no mundo inteiro, em “think tanks”, entidades empresariais, governos, universidades, na maioria das empresas que trabalham com a China, e em toda a mídia especializada, tentando descobrir os cenários possíveis para a China nos próximos anos, e as tendências nos diversos segmentos da economia, a partir das definições do Partido Comunista (PC) chinês, em seu 20º Congresso quinquenal, realizado entre 16 a 20 de outubro.
Decifrar o longo relatório (69 páginas) apresentado pelo presidente Xi Jinping na abertura do evento, dia 16, com as realizações do período que se finda e as propostas para o próximo, é uma árdua missão, até para quem está acostumado a pesquisar significados nas entrelinhas de discursos de dirigentes chineses, e a captar as nuances de acordo com o que se sabe do ambiente político no país – dificultadas sempre por traduções literais do mandarim para o inglês ou o português.
Coincidem as definições estratégicas do PC chinês e o terceiro mandato do presidente Xi Jinping com as eleições no Brasil, e a reiterada disposição do presidente eleito de reindustrializar o país e de melhorar as relações políticas e comerciais com a China. Portanto, cabe agora saber como se darão essas duas mudanças substanciais, já que a China está a léguas de distância do Brasil em questões decisivas, a começar pela malha ferroviária (cinco vezes maior; somente as linhas de alta velocidade já superam a extensão total da brasileira), e culminando no emblemático projeto de modernização industrial “Made in China”, o primeiro degrau significativo do Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovado em 2015, e em vigor até 2050 (coincidindo com os 100 anos da fundação da República Popular da China). A intenção, anunciada há sete anos, era a de acabarem com o “feito na China, por empresas estrangeiras”, para o novo patamar “fabricado por empresas chinesas”.
Será realmente difícil conseguirem chegar lá em 2025 por causa dos impactos negativos dos três anos de pandemia que afetaram bastante o setor industrial chinês, reduzindo a velocidade dos avanços. Mas não a impediram de continuar na direção planejada, conforme comprova o estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), publicado em setembro de 2022: a China mantém sua condição de maior exportadora do mundo da indústria da transformação, com 18,4% de participação, seguida de longe pela Alemanha (8,6%) e Estados Unidos – EUA (8,1%), e muito à frente do Japão (3,9%), Hong Kong (3,6%), Países Baixos (3,4%), Itália (3,2%), Coreia do Sul (3,1%) França (2,9%), Taiwan e México (2,4%), Reino Unido (2,2%), Cingapura, Índia e Suíça (2,1%). A soma da China, Hong Kong e Taiwan resulta em 24,5%; e é de 35,8% o total asiático de participação nas exportações mundiais da indústria.
Com a sétima maior população do mundo e o nono maior PIB, o Brasil aparece nesse ranking em 31º lugar, com 0,8% do bolo mundial. Fraco nas vendas internacionais, menos pior na produção: com 1,3% do total mundial de valor adicionado da indústria da transformação, o Brasil garantiu o 15º lugar em 2021. E a China novamente o 1º lugar, do alto dos seus 30,4% de participação, quase o dobro dos EUA (16,7%), e do Japão (7%), Alemanha (4,7%) e Índia (3,1%) somados.
Outros indicadores confirmam os avanços qualitativos da indústria chinesa, como o ranking 2022 da inovação mundial, no qual a China atingiu o 11º lugar, com 55,3 pontos (em 2012, estava em 34º, com 45,4 pontos). O Brasil, nesse ranking, figurava em 58º, em 2012, com 36,6 pontos; e em 54º, em 2022, com 32,5 pontos. Dado também revelador é o da instalação de robôs – em 2021, foram 243 mil na China (44% a mais que em 2020), metade do total instalado no mundo. Tanta robótica instalada aumentou no ritmo de quase tudo o que o país decide fazer – aos saltos: de 69 mil em 2015 (25º mais automatizado no mundo, com 49 robôs por 10 mil trabalhadores), para 97 mil em 2016, 156 mil em 2017… Dessa forma, em 2020 alcançou o 9º lugar no mundo, com 246 robôs por 10 mil empregados – em números absolutos, o país tinha em 2021 mais de um milhão de robôs em operação.
Investir tanto em automação, precisando gerar 10-12 milhões de novos empregos por ano parece enorme contradição. E não deixa de ser, olhando-se no curto prazo. Mas a médio prazo não é, pela grande redução esperada, da parcela da população chinesa em idade ativa (PIA), resultante do envelhecimento acelerado – a previsão de pessoas idosas (65 anos de idade e mais) na China é de passar dos atuais 220 milhões de habitantes para 350 milhões (25%) em 2030.
Reindustrializar o Brasil é fundamental para gerar empregos de qualidade, absorvendo a mão de obra altamente qualificada que sai todos os anos dos institutos federais e universidades. Conforme isso aconteça, o país entrará em um patamar melhor de desenvolvimento econômico. Foi assim na China nos últimos 30 anos. Quem acompanhou de perto esse período, sabe que a China passou da fase de indústrias de mão de obra intensiva (e barata), para produtos com mais tecnologia, com trabalhadores ganhando muito melhor: de 1990 para 2021, a renda per capita na China (pela paridade do poder de compra, em US$ corrente), passou de US$ 981,40 para US$ 19.338,20. Pelos mesmos critérios, a renda per capita no Brasil saiu de US$ 6.693,60 para US$ 16.056. Apesar do aumento do poder aquisitivo de quem trabalha nas indústrias chinesas, os seus produtos chegam pelo menos 30% mais baratos do que os da Coreia, Japão, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido – e isso somente é possível graças à sua lógica econômica própria, com estrutura de custos menor do que a dos países concorrentes, e à sua formidável malha ferroviária, ligando todas as cidades do país, mais dezenas de portos marítimos eficientes e gigantesca frota.
Será realmente difícil chegar lá em 2025 por causa dos impactos negativos dos três anos de pandemia que afetaram bastante o setor industrial chinês, mas isso não impedirá o país de continuar na direção planejada